souvenirs de férias

(o que é apenas maneira de dizer porque as férias não eram de fato minhas mas fingi o contrário com muita desenvoltura e pollyannei loucamente no processo e agora não tenho A MAIS VAGA NOÇÃO de como farei com meus prazos cagados.)

1. o triste papai noel sem teto com dreads na barba e roupas remendadas que sobrevive da reciclagem de embalagens de presente.

2. uma pintura de técnica refinadíssima e extremo bom gosto.

3. a elegante trilha sonora que embalou os melhores momentos dos últimos dias.



não explicarei nenhum deles, evidentemente.

enjoada.
eu não tenho borboletas no estômago. tenho pernas de aranha. um rato. um urso. refluxo gastro-esofágico. água fervendo. cianureto.
essa semana foi tão peculiar que provavelmente a relação social mais ~intensa~ que cultivei nos últimos dias foi com o pombo empalhado que vive em cima do armário da sala de aulas práticas. cada vez que os aluninhos fodem com a porra do experimento inteiro tipo jogar polpa de morango no papel de filtro sem coar antes, eu olho para o pombo em sua caixinha envidraçada e sei que ele se sente como eu: um ser que se descuidou por um momento e não entende muito bem como foi parar ali, e agora limita-se a fingir-se de morto enquanto observa a cena com seus incrédulos olhos de plástico. nunca na história da taxidermia um animal empalhado ostentou tamanho ar de reprovação. 

a coisa está uhu-tão-frenética que ontem a médica das vacininhas quis checar minha pressão e ela estava num fenomenal pico de 11x7, em vez dos desvalidos 9x6 habituais.

é muita adrenalina, minha gente.

dos pequenos prazeres de uma vida sem muitas opções

aqui na escola onde estagio tem banheiros separados para alunas, servidoras e funcionárias (não entendo bem como se dá essa divisão, acho que as funcionárias são terceirizadas, como o pessoal da limpeza e etc). o que significa que não existe um banheiro para visitantes ou pessoas que preferiam estar em casa dormindo e precisam desesperadamente lavar o rosto para aguentar o tranco.

de modos que eu simplesmente saio entrando no primeiro banheiro que cruze meu caminho. que costuma ser o das servidoras.

e toda vez, tooooda santa vez eu levo esporro. porque aquele não é o banheiro das alunas

média de idade das alunas: 17 anos.

anima tanto o meu dia. é como participar do 10 anos mais jovem toda vez que faço xixi.


(o tio da portaria também acha que eu sou aluna. mas ele surta, ele quer ver meu crachá de qualquer forma, estraga um pouco a magia do momento.)
sentei aqui às 7 da manhã com uma TORA de panetone cheia de manteiga pra ver se acordo e me bateu uma tristeza tão abissal que só não volto pra cama e enrolo a cabeça no edredon porque oi, tá muito calor. aí as pessoas falam "isso é depressão", mas pra mim depressão é uma coisa meio amorfa que não se sabe de onde veio ou pra onde vai, o que definitivamente não é o meu caso. eu sei muito bem de onde as coisas vêm. o que não sei é por que elas insistem em ficar, ou voltar, mesmo quando parece que dessa vez está tudo certo. sabe? por que as coisas na minha vida parecem vir com o botãozinho da autodestruição-em-cinco-segundos? por que estrago tudo? por que não posso fazer as coisas bonitinhas que nem todo mundo faz?

reflexões muito desnecessárias para uma manhã de sexta-feira.

e ainda preciso ir ali não só conviver com a pessoa-que-fede, como interagir e ser linda a ponto de fazê-lo colaborar comigo. como se faz para convencer uma pessoa de algo enquanto tenta-se desesperadamente não respirar o ar que a envolve? temos até a hora do almoço para descobrir. 
eu sou uma pessoa legal. não sempre, e não com todo mundo. mas estou aqui fazendo o que posso. 
então por que isso não me basta? por que eu vivo nessa busca maluca por aceitação, por compreensão? eu me entendo. eu sei os motivos que me levam a agir esquisitamente às vezes, a ter  reações descabidas. o que não sei é por que me sinto impelida a justificar isso o tempo todo. e me desculpar, e me sentir pequena e despreparada e insignificante ao me dar conta de que na verdade ninguém está se importando com a explicação. em algum momento da vida eu já achei isso libertador, sabe? essa coisa de ninguém se importar ou entender era como uma carta branca para ser o que bem entendesse. eu quero sentir isso de novo. essa leveza. mas sequer sei onde começar a procurar.
meu assunto atual se resume ao calor.
e ao bando de coisa que tenho pra fazer e não faço. porque tá muito calor.
note que essa lógica não se aplica à lavagem de roupa afinal é uma atividade que envolve água e refresca a pessoa.
(porque eu sou psicótica, eu lavo as roupa tudo na mão)
preciso de outra desculpa portanto.
ou apenas admitir que não quero fazer nada além de ficar bem quietinha no escuro, com o ventilador ligado.

mas o mais legal é que tô escrevendo isso tomando uma CANECA DE SOPA.
coerência é aqui mesmo.
e minha sobrinha que agora entrou numas de achar que banho é um troço muito supervalorizado? lavar a cabeça? pra que isso, minha gente? sabonete, ela NEGOCIA o uso do sabonete e as partes onde ele deverá encostar como se fosse feito de ácido sulfúrico. e chora copiosamente toda vez que é obrigada a entrar no chuveiro.

não, e todo o draaaaaama do processo?

- se eu morrer vocês vão ficar lembrando depois que me obrigaaaaaaram a entraaaar no chuveiro e eu não queriiiiia. 

 assim dizia ela essa noite. so-lu-çan-do. segunda-feira, 23h. sinceramente eu não sei o que fiz, né. pra merecer. 

- se você morrer eu faço uma placa e penduro no seu túmulo escrito assim: PELO MENOS MORRI LIMPINHA. 

 psicologia infantil: eu faço isso muito errado peculiarmente.
eu sou tão completamente surtada que quando começo a chorar do nada faço uma pequena pausa averiguativa para decidir se é uma pane nos neurotransmissores ou se é a vida que está uma merda mesmo.

admito que hoje estou um pouco em dúvida.

mas a resposta não muda nada mesmo, então foda-se.
tenho uma pasta no email onde vou jogando todos os convites que recebo. simpósios, congressos, semanas disso e daquilo, curso de manejo de cana de açúcar, semana dos produtores de banana prata. não é um sistema muito bom porque muitas vezes acumula tanto lixo que acabo perdendo eventos que realmente me interessavam (tá bom, vai, nem tanto), mas no geral administro minhas inscrições baseada em 3 critérios:

1. NÃO TEM DINÂMICA/RODINHA/MOMENTO VAMOS-DAR-AS-MÃOS
2. dá algum certificado útil (defina útil)
3. é razoavelmente perto de casa

e dentro disso eu me inscrevo em praticamente qualquer coisa. 

mas estava aqui analisando a viabilidade de um evento e me deparo com a seguinte informação:

a taxa de inscrição será utilizada para a compra do material e realização de nosso coffee break, que será o mais agroecológico possível!

gente.
aí não, né.
vamos combinar que ao se realizar uma inscrição apenas 2 coisas REALMENTE importam: o certificado e o coffee break. sem mimimis aqui. pode confessar, sua mãe e seu orientador não estão olhando. compartilhar conhecimento meu cu. eu quero ganhar um papel dizendo que gastei muitas horas de minha vida ali sentada e apresentei meu trabalhinho como um bom chimpanzé adestrado, se possível tomando um chocolate quente entre uma coisa e outra. agora imagine passar 3 horas assistindo uma mesa redonda sem mais nem porquê, e quando finalmente aquele martírio acaba vem alguém e te oferece, sei lá, chips de mandioca. cubos de mamão orgânico desidratado. rouba a alegria de viver (que já vai estar baixíssima). eu já ganhei banana em coffee break, cara. sem condições, acabou com o meu dia. e olha que já participei de uns eventos trevas que davam biscoitos suspeitíssimos e muitos litros de refrigerante genérico de manhã cedo, mas nada jamais superou a decepção de sair da sala e encontrar um cesto cheio de... bananas. 

então estava aqui pensando que, além dos 3 critérios habituais, precisarei adotar mais um. que consistirá na análise do nível de ripongagem de perfis do facebook dos membros das comissões organizadoras procurando por indícios como dreads, colares de sementes, flautas de bambu, fotos abraçando árvores e referências aos guarani kaiowá no status.


e a outra opção continua sendo descobrir em mim um insuspeito talento para a ginástica rítmica e trocar de carreira, mas sei lá, tô começando a achar um pouco difícil de acontecer.
tentei sintetizar em 8 faixas a trilha sonora desses oito-ou-nove anos de blog, as músicas que mais escutei enquanto escrevia meus mimimis. legal que eu acho que se mostrasse a trilha sonora ANTES dos posts provavelmente não teria um único leitor, né. mas tudo bem. ficaram faltando algumas coisas e quase desisti no meio do caminho. e sim, eu sei que dá pra incluir mais faixas, mas a bosta do site se chama 8 tracks e que ninguém se meta com meu toc, obrigada.

para ouvir clique aqui. que em homenagem a toda essa velharia eu até tentei editar o html na raça, mas esse layout moderno cagou pros meus img src. sdds geocities. :~


(a imagem está um pouco cagada porque foi recortada de um layout feito no paint para um dos blogs mais legais que já tive, em 177 a.c.. e que devia ter tipo 3.5 leitores, dos quais ao menos 2 eram imaginários.)
eu vi uma nuvem.


e fiquei até emocionada.

ok que ela saiu vagando assim que a foto foi batida e não parecia mesmo carregar uma única gota de chuva dentro de si, mas era uma nuvem, gente. uma NUVEM. talvez ainda chova em algum momento de 2012. já pensou que louco? talvez até mesmo refresque. não percamos a esperança.

eu só queria avisar

que dei uma olhadinha na previsão do tempo e hoje vai ser ainda mais quente do que ontem, tá?

de nada.
hoje eu passei a tarde interagindo com uma pessoa que fedia DE TODAS AS FORMAS que um ser humano pode feder estando ele vivo ou morto. e aí eu me perdi. e consegui pegar o ônibus errado. duas vezes. e descobri que meu dinheiro de outubro só será depositado em janeiro. o que não seria um problema porque recebi um email da imobiliária solicitando minha autorização para vender meu apartamento no morumbi por 680 mil, mas infelizmente eu não tenho apartamento nenhum, né. raquel errada, moço. e essa além de tudo é rica.

a sorte é que meu horóscopo na tv do ônibus (o certo, o terceiro) disse que embora meu dia pudesse ser decepcionante, o desfecho seria compensador. então tô aqui esperando, tá?

mas tomarei um rivotril só pra garantir.

apenas que:

eu peguei uma van no fundão para voltar para casa, porque já passava das 21:30 e nem sinal do ônibus.
após esgotar os lugares, o motorista apagou todas as luzes.
todo mundo se olhou discretamente com aquela cara de ok vamos ser assaltados rsrsrsrs.
mas em vez disso começou a tocar um TUNTZ TUNTZ.
uma luz negra piscou no fundo da van.
em seguida muitas luzes enlouquecidas começaram a se mexer no teto.
e todos viemos felizes para casa a bordo do mariuzinnmóvel.

fim. <3

relativizando as imbecilidades da vida

Até o final do século XVIII, a ciência ainda era muito influenciada pela religião e havia a crença de que a Terra era jovem, com não mais do que 6.000 anos de história. Essa idade havia sido estabelecida em 1650, pelo Arcebispo Ussher (religioso irlandês), que realizou um estudo baseando-se em todas as gerações apresentadas pela bíblia, desde Adão e Eva, e calculando seu tempo de duração. Assim, segundo Ussher, a Terra foi criada no ano de 4004 a.C., no dia 23 de outubro, um domingo.

(chuvoso, eu acrescentaria)


fica aqui portanto a mensagem motivacional desta quarta-feira. quando seu trabalho parecer estúpido, sem sentido e sugador de tempo, pense que não está TÃO RUIM assim, vá. pelo menos você não é o arcebispo ussher.
uma das grandes obsessões de minha vida é o esqueleto de anão que mora no anatômico. isso desde que eu era uma caloura jovem e inocente que achava que esse negócio de biomédicas ia me levar a algum lugar. eu frequentava o anatômico assim, só por ir, sem nenhum objetivo, e ficava lá olhando os bebês dentro de potes de vidro. tempos depois minha animação iria murchar por motivos de (1) ter sido reprovada por não querer matar um porquinho da índia, tirar seus órgãos e tornar a recheá-lo com algodão numa avaliação de taxidermia e (2) meu casaco preferido ter sido derrubado PELA ELAINE (nível de rancor: lembro até hoje o nome da babaca) dentro de um tonel cheio de um líquido que tinha o cheiro da morte, onde guardavam um macaco sem cabeça não sei. por que. caralhos.

mas então tinha esse esqueleto de anão, numa vitrine antiga com acabamento em madeira, muito bonita, e eu adorava por causa do conto da lygia e porque tenho vocação para me empolgar com coisas estranhas, né. enfim, meus dias de biomédica acabaram, minhas visitas ao anão também, e só voltei a vê-lo mês passado, quando comecei a cursar anatomia.

para minha total decepção a vitrine bonita desapareceu e o anão agora divide uma vitrine regular com um outro esqueleto sem graça. além de tudo foi posicionado de qualquer jeito e agora está parcialmente escondido por uma coluna na parede, como se estivesse com vergonha de alguma coisa. pensei até que fosse vergonha alheia por saber que eu AINDA estou por lá, mas hoje descobri o verdadeiro motivo. o anão outrora tão elegante, que morava numa vitrine vintage, agora divide espaço com um macaco (?) vindo do mais absoluto nada, pendurado no teto por um arame. quer dizer: realmente não está fácil pra ninguém.

mas pelo menos o meu macaco tem cabeça, tá, sua recalcada.
me pergunto que falha foi essa ao longo do caminho que me deixou fragmentada entre o que devia ter sido e o que restou. 

me pergunto quem sou e nenhuma resposta me satisfaz. sou qualquer coisa e coisa nenhuma e não há lugar em que esteja por inteiro, não há baú onde guardar esse monte de pedaços afiados que além de não fazerem muito sentido entre si não simpatizam uns com os outros. e eu vou largando um aqui e outro ali, pacificadora, tentando conter a rebelião. mas aí sempre falta alguma coisa. e então repentinamente falta tudo. falta essa cola que não está em filmes nem em livros nem em álcool nem em compras nem em noites em claro. nem em outras pessoas. não está em nada que me pertença, e também não está lá fora. 

talvez nem exista e eu esteja como sempre perdendo meu tempo. 

talvez um dia consiga enfim colar tudo e odeie o resultado, uma escultura cubista horrorosa que terei de arrastar pelo mundo. 

talvez um dia tenha a paciência necessária para juntar caco por caco e criar um mosaico. 

talvez apenas desencane disso tudo, guarde os pedaços à força, grite um AGORA SE VIREM! e vá viver minha vida fingindo que não tenho nada com eles.

e talvez, se eu repetir isso com bastante frequência e com bastante empenho, talvez acabe até mesmo me convencendo de que isso é possível.